DO ISAÚDE
O trigo transgênico pode ser a maneira de os celíacos saborearem as "delícias do pão" sem se preocuparem com os riscos de um processo alérgico
A variedade geneticamente modificada mantém as propriedades alimentícias e pode ser tolerada pela maioria dos celíacos
Uma nova variedade de cereal, obtida mediante engenharia genética, provoca uma reação 95% menos tóxica, mantém suas propriedades alimentícias e pode ser tolerada pela maioria das pessoas que sofrem com reações alérgicas ao glúten.
A doença celíaca ou celiaquia, é um transtorno autoimune, ou seja, que as próprias defesas do organismo o atacam ao invés de protegê-lo. Consiste na intolerância permanente a uma parte do glúten e que afeta até 2% da população mundial.
“Trata-se de uma alteração de origem genética, que sensibiliza o corpo frente ao glúten, uma substância das paredes do grão de trigo e de outros cereais composta por um polipeptídio (um fragmento de proteína) denominado gliadina”, explica o médico Manuel Zamora Gómez, especialista em Dietética e Nutrição.
“Em algumas pessoas, o contato do tubo digestivo com o glúten provoca uma intensa reação inflamatória, que ocasiona uma destruição da mucosa intestinal e impede que o corpo obtenha nutrientes importantes”, acrescenta Gómez, diretor-editor do site Nutrigia.
Segundo Zamora, os principais sintomas do transtorno celíaco são diarreia ou sedimentos abundantes, pálidos, fétidos e de mau aspecto; azia; dor abdominal; flatulência intestinal; anemia; raquitismo e os transtornos de coagulação.
Até agora não existe cura para esta doença e a única opção para quem a sofre é manter uma dieta livre de glúten. “O celíaco deve excluir o glúten de sua dieta e se alimentar só com produtos livres deste composto protéico, que também está presente na solução de alguns remédios, por isso que deve ler atentamente suas bulas”, explica Manuel.
Daí a importância de uma pesquisa do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) espanhol, que conseguiu desenvolver variedades de trigo que poderiam ser toleradas pela maior parte das pessoas sensíveis ao transtorno celíaco.
A pesquisa revela que as variedades desenvolvidas pelo CSIC produzem uma reação até 95% menos tóxica do que o trigo natural. A descoberta aconteceu mediante a modificação genética do cultivo deste cereal através da supressão da maior parte da fração de proteínas responsáveis pela resposta alérgica por parte dos doentes, as gliadinas.
Para comprovar o sucesso do trabalho, se analisou a reatividade das farinhas do trigo transgênico e uma série de linfócitos T, em um experimento em proveta que simulava o processo de digestão no intestino delgado humano.
Os linfócitos T, que são os glóbulos que reconhecem as gliadinas e desencadeiam a reação tóxica nos celíacos, foram extraídos dos próprios doentes.
“Na maior parte dos experimentos, a reatividade das gliadinas se reduziu entre 90% e 95%”, assegura o responsável pelo estudo, o pesquisador Francisco Barro, do Instituto de Agricultura Sustentável do CSIC, que acrescenta que inclusive “em alguns casos não houve reação alguma”.
Para que um alimento seja considerado isento de glúten segundo a Comissão do Codex Alimentarius (criada pela Organização Mundial da Saúde), deve conter um máximo de 20 miligramas por cada quilo do produto (mg/kg).
Um inimigo digestivo chamado glúten
Esta quantidade inclui tanto a fração de glúten tóxica como a inócua. As farinhas desenvolvidas pelo CSIC “contêm valores aproximados de entre 40 mg/kg e 50 mg/kg, embora esta quantidade diminua no produto alimentício final”, explica Barro.
Só uma minoria dos doentes celíacos o é de forma estrita, o que significa que não podem ingerir mais de 10 mg/kg de glúten. A grande maioria dos afetados “pode consumir até 100 mg/kg, por isso que estas farinhas poderiam ser consumidas por eles”, assegura o investigador do CSIC.
Embora a modificação destas variedades de trigo represente a redução de suas proteínas, Barro assegura que “suas propriedades nutritivas serão similares às do trigo comum”.
As versões transgênicas (obtidas por engenharia genética) compensam este déficit de gliadinas aumentando seu conteúdo em outras proteínas presentes no grão ricas em lisina. Este animoácido, “essencial para os humanos, deve ser incluído na dieta já que o organismo não o gera de forma natural”, explicou Barro.
Segundo o pesquisador, os testes realizados com estas variedades de trigo “foram muito satisfatórios e seus resultados deram valores normais de textura, sabor e aspecto, comparáveis com as da farinha de trigo comum”.
Para Barro, “os grupos de celíacos apoiaram ativamente o desenvolvimento destas variedades e estão entusiasmados com o avanço, embora o processo para o produto chegar a ser comercializado vai ser muito complicado”.
” Além disso, manter uma dieta livre de glúten representa um elevado custo econômico e este componente está presente na maioria dos produtos consumidos” , acrescenta.
A patente do CSIC foi adquirida por uma companhia inglesa. A equipe está em processo para comprovar a eficácia das variedades em pacientes através de um teste clínico. A pesquisa também contou com a participação do Instituto de Imunologia da Universidade de Oslo (Noruega).