segunda-feira, 3 de julho de 2017

"O que penso sobre GLÚTEN" Dr Pedro Bastos- Lisboa/Portugal




O glúten é um conjunto de proteínas (glutelinas e prolaminas), encontrado no trigo (incluindo kamut e espelta), centeio e cevada, que, em pessoas geneticamente predispostas, poderá levar à Doença Celíaca, uma patologia autoimune que afeta o intestino delgado, causando vários sintomas (intestinais e extra-intestinais) e aumentando o risco de outras patologias. Para alguém diagnosticado com esta doença, a terapia globalmente aceite reside, assim, numa dieta totalmente isenta de glúten, mas antes de se iniciar a mesma é fundamental que tenha havido um adequado diagnóstico médico, dado que a adoção de uma dieta sem glúten poderá originar um falso diagnóstico negativo.

Além dos celíacos, outras pessoas também poderão ser afetadas pelo glúten. Nos últimos anos, várias linhas de investigação têm sugerido que existe uma outra entidade, presumivelmente mais prevalente que a Doença Celíaca, designada Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca. O facto desta entidade estar ainda pouco estudada, quando comparada com a Doença Celíaca, tem gerado controvérsia em torno da mesma. A isto junta-se o facto do trigo (que é um dos principais cereais ingeridos na maioria dos países ocidentais) conter outras proteínas (como lectinas e inibidores dos enzimas alfa amilase e tripsina) e alguns oligossacáridos (existentes em vários alimentos de origem vegetal além do trigo) que poderão ser responsáveis por diversos efeitos adversos normalmente atribuídos ao glúten. Assim, o ideal seria que quem sofresse das alterações que se pensa serem características da Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (diarreia, obstipação, dor e inchaço abdominal, flatulência, dores articulares, dermatite, fadiga crónica e alterações neurológicas e psiquiátricas) recebesse um adequado diagnóstico para que o tratamento fosse personalizado, podendo este passar por uma dieta isenta de glúten e/ou de outros alimentos.

Isto suscita uma questão pertinente: porque é que alguém sem um diagnóstico de Doença Celíaca ou de Sensibilidade ao Glúten decide levar a cabo uma dieta sem glúten? 

Talvez porque exista alguma evidência que quer o glúten, quer as lectinas, quer os inibidores enzimáticos presentes no trigo, no centeio e cevada poderão, por mecanismos distintos, causar alterações imunológicas e hormonais adversas, que poderão estar na origem de algumas doenças (nomeadamente doenças autoimunes). Além disso, a maioria dos alimentos baseados em farinha de trigo apresentam uma elevada carga glicémica e são pobres em vitaminas e minerais (ou contêm fatores que dificultam a sua absorção), o que se pode revelar um problema se substituírem outros alimentos mais ricos do ponto de vista nutricional, como é o caso das hortaliças, fruta e tubérculos. 

Outra questão importante e que tem estado na ordem do dia, à luz de alguns estudos observacionais recentes que foram alvo de grande destaque por parte dos meios de comunicação social, é: quais os “perigos” de uma dieta isenta de glúten?

A resposta correta poderá ser: 

A) nenhum “perigo” e até vários benefícios

B) vários “perigos“, dependendo das escolhas feitas.

Não devemos esquecer que um rótulo “gluten-free” não é garantia de saudável e que muitas alternativas aos alimentos com glúten existentes no mercado não passam de alimentos processados com alto teor de açúcar e de gordura (normalmente gorduras hidrogenadas ou óleo de palma) e tendo como base farinha de cereais (sem glúten) refinados e com elevada Carga Glicémica. Além disso, vários alimentos e bebidas que não deveriam ser incluídos (pelo menos de forma regular) na nossa dieta são naturalmente “gluten-free”, como é o caso das batatas fritas, de vários refrigerantes e bebidas alcoólicas e de diversos cereais refinados (com elevada carga glicémica e reduzido teor de fibra). Este facto pode, só por si, explicar os possíveis efeitos adversos de uma dieta com restrição ou redução do teor de glúten observados em alguns estudos.

Assim, uma dieta isenta de glúten pode ser adequada ou inadequada, dependendo das escolhas que se fazem. Se por um lado muitas opções sem glúten disponíveis no mercado são pouco ou nada saudáveis, por outro existem diversos alimentos naturalmente isentos de glúten, que são até mais ricos em fibra, vitaminas, minerais e fitoquímicos que os cereais com glúten (estejam os mesmos na sua versão integral ou não), como é o caso das hortaliças, fruta, oleaginosas e tubérculos.

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