quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Novo teste para os celíacos


Mais um teste serológico da intolerância ao glúten

Imagem retirada da Net
Anticorpos anti-péptidos desamidados da  gliadina (a-DGP)... parece um palavrão mas não é. Este é o mais recente teste serológico que se está a usar no diagnóstico da intolerância ao glúten. Ouvi falar dele pela primeira vez no fórum do celiac.com; do que li, parece que este, associado aos anti-corpos anti-tranglutaminase, revela uma especificidade bastante alta no diagnóstico, o que poderá ser um bom auxiliar aos sensíveis ao glúten que não acusam positivo nos testes actuais.

Não sei se já há laboratórios em Portugal a oferecer este teste (nem sequer sei se haverá médicos que o peçam), mas encontrei o seguinte texto no site da Menarini, uma empresa que vende produtos para laboratórios de análises; neste caso, o texto informa sobre o teste em si e o kit para o realizar (por técnicos de laboratório, não é um kit caseiro) à venda na Menarini. Parece ser particularmente eficaz em idades pediátricas na sua vertente IGG, em que há um grande número de falsos negativos, como foi o caso do Lucas.

  
"A doença celíaca (DC), ou intolerância alimentar ao glúten, é uma doença auto-imune, a qual se manifesta em indivíduos geneticamente susceptíveis, accionada por uma dieta rica em cereais, tais como trigo, cevada e centeio.

A predisposição genética está principalmente ligada a alguns genes do sistema HLA, em particular aos genótipos DQ2 e DQ8 que estão presentes em 95 a 98 % dos indivíduos celíacos, mas que também se registam numa percentagem entre 20 e 30% na população geral. A proporção de DC na população caucásica é de 1:100 aproximadamente, de modo que um indivíduo em cada 30 que seja portador dos alelos codificados dos genes HLA DQ2/DQ8 desenvolve a DC.

A gliadina é a porção proteica do glúten capaz de accionar o processo auto-imune; o contacto entre os péptidos da gliadina e as células do sistema imunitário da submucosa intestinal pode dar-se em seguimento a uma alteração da permeabilidade intestinal provocada pela zonulina segregada pelos enterócitos. A gliadina é um excelente substrato para a enzima transglutaminase tecidual (t-TG); as acções de desamidação e transamidação nos péptidos gliadínicos pela t-TG, modificam a carga total da molécula permitindo a sua ligação aos antigénios HLA DQ2-DQ8, exprimidos pelas células que apresentam o antigénio, com a formação de um composto HLA DQ2-DQ8/ péptidos desamidados/t-TG. Esse composto é reconhecido pelos linfócitos T CD46 que accionam o processo imunológico com a activação dos linfócitos T efectores, produção de citoquinas, proliferação dos linfócitos B e síntese de anticorpos anti-tT-G7 e antipéptidos da gliadina. O resultado é um processo inflamatório com diferentes quadros histológicos que chegam até lesões (reversíveis) da mucosa intestinal, tais como a atrofia vilosa.

Os testes serológicos assumem um papel decisivo no diagnóstico da DC e na monitorização da adesão ao tratamento, caracterizado por uma dieta isenta de glúten. Como indicado nas linhas guias internacionais, o primeiro passo no diagnóstico de DC é a execução de um teste para pesquisar auto-anticorpos anti-t-TG de classe IgA em combinação com o teste de dosagem das IgA totais; esta praxe é aconselhada pois os indivíduos com défice absoluto de IgA (IgA ≤ 5 mg/dl)10 têm um risco relativo de contrair a DC 10 vezes superior à população normal.

A elevada sensibilidade e especificidade dos auto-anticorpos anti-transglutaminase IgA, respectivamente de 96 a 98% e de 93 a 95%12, associada à objectividade e à automação total do teste, fazem com que a pesquisa de anti-t-TG IgA tenha substituído, ao longo dos últimos anos, os outros testes serológicos da DC. A pesquisa dos anti-endomísio (EMA) IgA tem todavia um papel de confirmação importante em todos os soros anti-t-TG IgA positivos, exactamente pela sua elevadíssima especificidade (99 a 100%) dos EMA, apesar de se manterem relevantes os aspectos interpretativos deste teste. Nos défices selectivos de IgA é obrigatória a execução dos anti-t-TG IgG em combinação com os anticorpos anti-péptidos desamidados da  gliadina (a-DGP) IgG.

Recentemente, foi demonstrado que os indivíduos celíacos sintetizam anticorpos específicos dirigidos contra alguns péptidos desamidados da gliadina. Os anticorpos anti-DGP demonstram-se muito específicos na identificação dos sujeitos com intolerância ao glúten, ao contrário dos anticorpos anti-gliadina na totalidade, registados em indivíduos saudáveis ou com outras patologias do sistema entérico e, portanto, com especificidade reduzida.

Os anticorpos anti-DGP de classe IgA apresentam uma sensibilidade de 86 a 95% e uma especificidade de 91 a 95%, enquanto os de classe IgG apresentam uma sensibilidade de 84 a 98% e uma especificidade de 95 a 98%; estes desempenhos sugerem a sua utilização nos indivíduos em idade pediátrica nos quais a síntese desses anticorpos parece anteceder a dos anti-transglutaminase IgA. Para além disso, é aconselhada a utilização dos testes para anticorpos anti-DGP, quer da classe IgA, quer da IgG, independentemente da idade, em todos os indivíduos com sintomas indicativos de DC, nos quais os autoanticorpos t-TG ou EMA estão ausentes ou apresentam títulos baixos.

Nos doentes celíacos em dieta isenta de glúten, assiste-se a um decremento progressivo dos anticorpos anti-t-TG e anti-gliadina. A diminuição do título de anticorpos de classe IgG é mais lenta do que a dos anticorpos de classe IgA."