quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Revista Projetos Escolares

                     REVISTA PROJETOS ESCOLARES
ENTREVISTA COM FLAVIA ANASTÁCIO DE PAULA
MAIO DE 2011


... Além de a doença ser pouco conhecida da população em geral, não há muitas estatísticas detalhadas sobre a quantidade de pessoas celíacas no Brasil ou mesmo o mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a doença celíaca afeta 1 em cada 300 a 3000 indivíduos, dependendo da região observada. No Brasil, uma pesquisa realizada com doadores de sangue constatou que uma em cada 214 pessoas a apresenta. Na escola, a criança celíaca precisa de atenção especial no que se refere à sua alimentação, pois a ingestão de glúten pode causar desconfortos físicos e possíveis danos à saúde dos pequenos. Também é preciso muito cuidado para que essa criança – que não pode comer boa parte dos alimentos mais comuns – não se sinta excluída na hora do lanche, na comemoração de aniversários, em passeios e outras ocasiões que envolvam lanches ou refeições. Como a escola pode auxiliar nessa questão? Para desvendar mitos e colocar o assunto em debate, a Projetos Escolares conversou com a pedagoga Flávia Anastácio de Paula sobre o assunto. Ela é celíaca, mãe de três celíacos
e foi professora da rede municipal por 10 anos. Formada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Psicopedagogia pela Universidade Estadual de Minas Gerais e doutora em Educação pela Universidade de Campinas. Flávia é professora e trabalha nas turmas de Educação Infantil e Alfabetização.


Projetos Escolares – O que é a doença celíaca?
Flávia Anastácio de Paula – A doença celíaca é uma doença autoimune. Na verdade, a única doença autoimune da qual conhecemos efetivamente o gatilho: o glúten. Existe uma produção de anticorpos que é desencadeada pela presença do glúten e esses anticorpos destroem ou inflamam as células intestinais, dificultando a absorção de uma série de nutrientes. O intestino inflamado, “machucado”, dificulta o organismo a absorver nutrientes, vitaminas, minerais e água dos alimentos. Essa inflamação pode ter sintomas no aparelho digestório, em outros órgãos (neurológicos, respiratórios, pele, fígado e outros) ou não ter sintoma aparente. A Doença Celíaca não é transmissível de uma pessoa para outra. Trata-se de uma intolerância permanente ao glúten em pessoas cuja predisposição genética é herdada dos pais biológicos. Os pais podem ser assintomáticos. Nascemos com uma potência genética para desenvolvê-la ou não e vai depender dos fatores ambientais e alimentares.

P.E. – O que é o glúten e como é o tratamento?
F. P. – O único tratamento é a eliminação do contato com o glúten fazendo uma alimentação por toda a vida sem glúten. O glúten é uma denominação internacional para a principal proteína presente nos cereais produzidos no inverno: trigo, aveia, centeio, cevada e nos seus subprodutos como: malte, gérmen de trigo, gérmen e farelo de aveia.
O glúten é uma substância tecnológica muito utilizada nos nossos alimentos porque dá a liga, a elasticidade à massa, e acrescenta volume a muitos produtos. Para a maioria das
pessoas, é uma fonte importante de proteína. Já para as pessoas intolerantes e sensíveis, um perigo.

P.E. – Por que o glúten contamina alimentos com tanta facilidade?
F. P. – Segundo o IBGE, dos cinquenta produtos mais consumidos no Brasil, dez são de glúten. No entanto, não é apenas esse o cuidado. Na nossa cultura atual, o trigo é uma figura presente em todas as casas, restaurantes e cantinas. A farinha de trigo espalha-se com muita facilidade pelo ar, pelos equipamentos e dentro dos lugares de armazenagem de alimentos. Assim, quando um alimento que originalmente não tem glúten, por exemplo a mandioca, encosta em algo que contém trigo, é contaminado. Além disso, uma grande parte dos temperos em pó podem ter sido acrescidos de trigo. Outra forma de contaminação importante é o compartilhar de utensílios e equipamentos usados para
preparar os alimentos com glúten e os de uma pessoa celíaca. Não contém glúten
Macarronada, lasanha, pães, sanduíches, bolos e biscoitos são alguns dos alimentos que os celíacos devem evitar ou tcom os quais devem ter cuidado. Você já notou que as embalagens de alimentos industrializados recebem a indicação destacada informando a presença ou não de glúten? É uma determinação do Governo Federal, que pretende ajudar e proteger as pessoas portadoras da Doença Celíaca (DC). Os celíacos têm intolerância a uma proteína presente em diversos alimentos – especialmente os farináceos –, o glúten.

P.E. – O que acontece com um celíaco que consome glúten ou alimentos contaminados pela proteína?
F. P. – Uma simples migalha de pão contém milhares de vezes a quantidade de glúten que um celíaco pode tolerar. A pessoa celíaca, em contato com o glúten, tem uma reação
autoimune. Cada celíaco pode ter sintomas diferentes: há pessoas que não têm sintomas aparentes e, mesmo assim, o intestino está sendo agredido pelos anticorpos.É importante lembrar que cozinhar ou assar não destrói a proteína do glúten. Os sintomas mais comuns são: irritabilidade, diarreia crônica, vômitos, dor abdominal, constipação crônica, desnutrição com déficit de crescimento, baixa estatura, anemia ferropriva não curável, emagrecimento e falta de apetite, distensão abdominal, osteoporose, mancha nos dentes, esterilidade, abortos de repetição, doenças neurológicas, depressão.

P.E. – Quais são os alimentos seguros?
F. P. – Os alimentos industrializados seguros são aqueles que trazem a inscrição NÃO CONTÉM GLÚTEN, que segundo a lei 10.674, de 16 de maio de 2003, deve vir em caixa
alta e em negrito. Com os alimentos que naturalmente não contém glúten (todas as frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, aves, ovos, feijão, lentilha, ervilha, arroz, soja, milho, mandioca, batatas, raízes, amendoim, nozes, amêndoas, farinhas de arroz, mandioca, soja, gelatina, derivados de leite, fécula de batata, polvilho, amido de milho, quinoa, amaranto e farinha de arroz) precisamos tomar os cuidados de manipulação, preparo e armazenagem.

P.E. – A criança celíaca pode ir à escola normalmente, fazer Educação Física e demais atividades com os colegas?
F. P. – Sim, ela deve e tem o direito de ir à escola como as demais. A família deve informar à escola que a criança é celíaca e apresentar o laudo médico.

P.E. – É importante a escola acompanhar a alimentação desse aluno? Por quê? Essa criança precisa comer separada das outras?
F. P. – Atualmente, temos inúmeras crianças com necessidades alimentares especiais: alérgicas à proteína do leite, com outras alergias alimentares, intolerantes à lactose, fenilcetonúricas, diabéticas, hipertensas, obesas, etc. É importante a escola acompanhar a todas, pois todas têm direito à vida e o Direito Humano à Alimentação Adequada. Tanto as crianças celíacas, como as demais crianças com necessidades alimentares especiais, precisam ser cuidadas. A alimentação é uma faceta do cuidar na escola e na Educação Infantil, e um momento de interação social. Precisamos compreender que exclusão alimentar não deve virar exclusão social. Crianças celíacas devem comer no mesmo espaço e tempo que os amigos, mas seu alimento precisa ser sem glúten.

P.E. – Existem materiais escolares passíveis de contaminação com glúten?
F. P. – Além do alimento, outros produtos escolares podem ter glúten, especialmente massinhas de modelar e cola. Elas devem ser substituídas por massinhas de modelar sem glúten e cola sem glúten.

P.E. – É necessário adequar a alimentação escolar para uma dieta sem glúten?
F. P. – O glúten não é uma proteína essencial para a nutrição. Sua maior vantagem é que ela é uma proteína vegetal barata. Além disso, no nosso país esse alimento teve sua expansão no século 20. A alimentação histórica do Brasil e das Américas era sem glúten e sem trigo. Comer sem glúten e sem trigo não prejudica o desenvolvimento físico e intelectual das crianças. Na escola privada, não há obrigatoriedade de oferecer alimentação, assim geralmente a criança celíaca leva o lanche sem glúten de casa.
Se a escola é pública, deve oferecer alimentação escolar adequada a todos, inclusive para as crianças com necessidades alimentares especiais. Para a criança celíaca também. A forma de fazer isto nas escolas públicas é variada. No estado de Santa Catarina, a escola estadual que tem uma criança celíaca passa a oferecer para todos os alunos daquela escola alimentos sem glúten. Visando a inclusão, a execução de
projetos escolares que prestigiem a nossa cultura tradicional culinária e a diminuição de custos para evitar a contaminação de alimentos e equipamentos. Em muitos municípios do Brasil, as instituições fazem tanto alimentos com glúten e sem glúten e nesse caso diretores, professores e merendeiras precisam ser treinados por nutricionistas para evitar a contaminação cruzada. Em municípios ou estados com alimentação centralizada ou até terceirizada, o setor de compras deve comprar alimentos adequados aos celíacos e às demais crianças com necessidades alimentares especiais.

P.E. – O que a escola pode fazer para evitar que essa criança se sinta isolada? Quais estratégias podem ser adotadas pela escola para facilitar a vida do aluno celíaco (por exemplo: orientação nutricional, palestras para os professores, etc)?
F. P. – Em primeiro lugar, a escola precisa se informar e estudar. Tanto os profissionais como as crianças. É um trabalho de acolhimento e inclusão. A criança precisa sentir-se segura e respeitada. Para as demais crianças, cabe aos profissionais orientá-las. Com crianças pequeninas explicações simples funcionam bem: “Ela tem dor de barriga, precisa de comida especial e não pode trocar lanches”. Para os maiores e conscientes de suas diferenças, inicialmente a professora pode ajudá-los a preparar uma apresentação sobre sua “alergia”. A escola já pensa que a alimentação é um ato educativo, logo, pode adequar seus projetos pedagógicos. Por exemplo, quando se tem projeto de culinária, pode-se escolher receitas que não tenham glúten. Fazer um resgate da alimentação tradicional daquela região ou de outras regiões do país. É essencial pensar que as crianças celíacas precisam receber prêmios ou lembrancinhas sem glúten., Que ao fazermos festas, se não pudermos ter todos os pratos sem glúten e sem contaminação, pelo menos termos alguns. Planejarmos que excursões e passeios são momentos oportunos para que todas as crianças compartilhem um alimento diferente e sem glúten. Se isso não for possível, avisar à família com antecedência sobre um evento fora da escola é essencial, para que todos consigam e organizar. Crianças celíacas, por questão de sobrevivência, aprendem a ler rótulos rapidamente para identificar as expressões “CONTÉM GLÚTEN” e “NÃO CONTÉM GLÚTEN”. Se o trabalho pedagógico está sendo bem feito, logo as demais crianças ficarão atentas a este detalhe.

P.E. – Como educadora, celíaca e mãe, quais os maiores obstáculos que você já enfrentou no que diz respeito ao relacionamento com a escola?
F. P. – O maior obstáculo é sempre a falta de informação. Às vezes, como profissionais, passamos muitas horas nas escolas e, sendo celíacos, não temos o que comer. Como mãe de celíacos, fazer uma abordagem positiva junto aos profissionais tem surtido bons frutos. Os meus maiores obstáculos são em relação ao sistema: Como nos tornar visíveis? Quantos somos? Como garantir alimento sem glúten para celíacos quando na licitação isso não foi previsto? Como melhorar o diagnóstico e o pós-diagnóstico? Como ter representatividade nos conselhos? Como assegurar alimento adequado a
quem não pode adquirí-lo?

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