Entrevista com Dr. Alessio Fasano- COINE 2012

O COINE 2012 ( CONGRESSO INTERNACIONAL DE NUTRIÇÃO ESPECIALIZADA)FEZ UMA ENTREVISTA COM DR. ALESSIO FASANO, CONSIDERADO A MAIOR AUTORIDADE MUNDIAL EM TRANSTORNOS RELACIONADOS AO GLÚTEN.


Vejam a entrevista:

1) Quando você começou a estudar os problemas de consumo de glúten em pessoas selecionadas?
“Comecei a tratar a doença celíaca durante a minha formação médica, em Nápoles, na Itália, no início de 1990. Depois fui para a Universidade de Maryland, em Baltimore, Maryland, onde eu criei a Divisão de Gastroenterologia Pediátrica da Universidade de Maryland School of Medicine.
Embora eu costumasse tratar de 15 ou 20 pacientes pediátricos com doença celíaca por semana na Itália, descobri muito, muito poucas crianças com doença celíaca nesses primeiros anos em Baltimore. Este foi um grande mistério para mim, e em 1996 eu escrevi "Onde foram todos os Celíacos americanos?" Nesse mesmo ano, também fundei o Centro de Pesquisa Celíaca da Universidade de Maryland para resolver o mistério do por que a doença celíaca estava presente na Europa, mas não na América do Norte.
Desde aquela época, nós aprendemos muito mais sobre os transtornos relacionados ao glúten do que eu teria imaginado. Os resultados do nosso grande estudo epidemiológico publicado em 2003 mostrou que um em cada 133 americanos sofre de doença celíaca. Junto com a descoberta sobre a prevalência e o mecanismo de doença celíaca (agora definida como uma doença auto-imune). Nós também aprendemos sobre a alergia ao trigo e a sensibilidade ao glúten. Estas são as novas fronteiras do aprendizado sobre glúten e seu efeito sobre indivíduos suscetíveis.”

2) Existem pesquisas documentadas que comprovam a existência de sensibilidade ao glúten?
“Sim, um trabalho de pesquisa publicado no ano passado, os cientistas do nosso Centro de Pesquisa Celíaca e de outras organizações, incluindo Johns Hopkins School of Medicine, em Baltimore, Maryland, provou que a doença celíaca é uma entidade molecular diferente da sensibilidade ao glúten.
Aqui estão os links para o trabalho de pesquisa:”
http://somvweb.som.umaryland.edu/absolutenm/templates/?a=1474&z=5
http://somvweb.som.umaryland.edu/absolutenm/articlefiles/1474-Gluten% 202011.pdf% 20Sensitivity

3) Nos EUA a comunidade médica reconhece a existência da sensibilidade ao glúten?
“Ainda temos muitas perguntas não respondidas em relação à sensibilidade ao glúten. Embora saibamos que é relacionada ao sistema imunológico inato, ainda estamos descobrindo os mecanismos moleculares que criam essa condição em indivíduos suscetíveis. No Centro de Pesquisa Celíaca, estamos à procura de um biomarcador para o diagnóstico da sensibilidade ao glúten. Uma vez que o descubramos, vamos ser capazes de criar uma ferramenta de diagnóstico para a sensibilidade ao glúten.
Na comunidade clínica, a sensibilidade ao glúten é cada vez mais reconhecida como uma condição separada da doença celíaca. Os médicos descobriram que certos indivíduos com teste negativo para a doença celíaca, alergia ao trigo e outras condições respondem positivamente a uma dieta livre de glúten. Em alguns aspectos, foram os pacientes que nos ensinaram sobre a sensibilidade ao glúten, e nós aprendemos a ouvi-los.”

4) O Brasil vai sediar a próxima Copa do Mundo de futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio em 2016. Você acha que o Comitê Olímpico Brasileiro deveria pensar em testar os atletas quanto a sensibilidade ao glúten, com a intenção de melhorar as suas performances?
“Esta é uma pergunta muito interessante, mas eu não acho que seja um uso apropriado para qualquer ferramenta de diagnóstico para a sensibilidade ao glúten que nós possamos ter até 2016.
Atletas adotam, o tempo todo, dietas especiais para aumentar as suas performances e, em minha opinião, isso não significa que eles estão "enganando", uma vez que eles estão maximizando o desempenho do seu corpo sem o uso de abordagens ilegais. Tenho certeza de que os atletas brasileiros têm treinadores e nutricionistas licenciados que os orientarão muito bem sobre qual regime de dieta é melhor para cada indivíduo.”

5) Nos EUA, há atletas que não consomem glúten, visando alcançar uma performance melhor?
“O tenista sérvio Novak Djokovic é o atleta de maior destaque que abraçou a dieta livre de glúten. Suas notáveis atuações fizeram dele o jogador número um do tênis no mundo.
Outros atletas, incluindo jogadores americanos da liga principal de beisebol e jogadores de tênis, seguiram a dieta sem glúten para melhorar seu desempenho. A Team Garmin foi destaque no noticiário dos EUA, quando toda a equipe de ciclismo profissional aderiu a dieta sem glúten antes do Tour de France em 2010.”

6) Quais são as principais diferenças entre a doença celíaca e sensibilidade ao glúten?

“Embora os sintomas (principalmente gastrintestinais) sejam muitas vezes semelhantes aos da doença celíaca, o quadro clínico é menos grave. Uma pesquisa recente do Centro de doença celíaca da Universidade de Maryland mostra que a sensibilidade ao glúten é uma entidade clínica diferente. Não resulta em uma inflamação intestinal, que leva a um achatamento das vilosidades do intestino delgado e que caracteriza a doença celíaca. O desenvolvimento de Anticorpos de Transglutaminase Tecidular, utilizado para diagnosticar doença celíaca, não está presente na sensibilidade ao glúten.
Outro mecanismo imune, a resposta imune inata, aparece nas reações de sensibilidade ao glúten, ao contrário da resposta imune adaptativa de longo prazo que surge na doença celíaca. Os pesquisadores acreditam que as reações sensíveis ao glúten não geram danos em longo prazo para o intestino do mesmo modo que a doença celíaca não tratada pode causar.”

7) A sensibilidade ao glúten causa alteração na permeabilidade intestinal?
“Esta é uma das diferenças que observaram em relação à doença celíaca, uma vez que não foi detectada qualquer alteração na permeabilidade do intestino em indivíduos afetados pela sensibilidade ao glúten. No entanto, isto não quer dizer que eles não possam ter alterações transitórias na barreira intestinal, que, por esta razão, não podem ser detectadas com métodos de rotina.”

8) A sensibilidade ao glúten pode estar associada a outras doenças autoimunes?
“A resposta provavelmente é não.”

9) Uma pessoa com sensibilidade ao glúten pode comer produtos com glúten ocasionalmente sem danos ao sistema imune?
“Esta é uma das perguntas que ainda não somos capazes de responder de forma satisfatória. No caso da sensibilidade ao glúten, estamos na mesma encruzilhada que estávamos há 20 anos com a doença celíaca. Estamos começando a aprender sobre o que as pessoas podem tolerar.
Na sensibilidade ao glúten, ao contrário de doença celíaca, parece haver uma grande variabilidade na quantidade de glúten que pode ser tolerada, mesmo pelo mesmo indivíduo em diferentes pontos no tempo. Nós temos muito a aprender sobre os distúrbios relacionados a essa novidade na área do glúten.”

10) Você recomenda que as pessoas com sensibilidade ao glúten utilizem enzimas digestivas?
“Eu, pessoalmente, não recomendo o uso de enzimas digestivas em tudo, já que nós não temos nenhuma evidência de sua eficácia. Estudos controlados são necessários para validar essa abordagem.”

11) Os grãos transgênicos têm um efeito tóxico sobre as pessoas com doença celíaca?
“Grãos contendo glúten são intrinsecamente tóxicos para as pessoas com doença celíaca. As proteínas tóxicas encontradas no trigo, cevada e centeio, que coletivamente chamamos de "glúten", não podem ser digeridas por ninguém. Para a maioria das pessoas, isso não é um problema, à medida que elas passam através do sistema digestivo sem incidentes.
Para as pessoas com doença celíaca, os peptídeos de glúten iniciam uma resposta autoimune que conduz à inflamação do intestino. Deve salientar-se que, durante os últimos séculos, o conteúdo de glúten de grãos aumentou e, com isso, a toxicidade dos grãos também aumentou.”

Entrevista dada ao COINE 2012
Tradução: Equipe CBAN - www.cban.com.br